Entrevista com Marcelo Caldi.
CDA - Em primeiro lugar, nos fale como foi seu trabalho de 2005 para cá...

Marcelo - Bem, considero o ano de 2005 como o ano em que comecei a ter algum sucesso profissional. Trabalhei na microssérie 'Hoje é Dia de Maria' (da Rede Globo), toquei e gravei com diversos artistas, como Chico Buarque, Zélia Duncan, Elza Soares e comecei a gravar meu primeiro disco solo. Em 2006 lancei esse disco, e tive ótimas críticas (graças a Deus, hehehe...) na imprensa carioca e paulista. Além disso, sou um workaholic assumido, pois nesse mesmo período lancei um disco do meu grupo LiberTango, dedicado apenas à obra de Piazzolla, e outro disco do grupo vocal BR6, nos EUA.
CDA - O Disco está belíssimo... Você fez toda produção sozinho?
Marcelo - Sim, fiz tudo mesmo, desde todas as notinhas de todas as músicas até bancar os custos de estúdio. Contei com a ajuda maravilhosa dos meus irmãos de música Matias Correa (que gravou, mixou, masterizou e tocou baixo), Alexandre Caldi (saxofones) e Fábio Luna (flauta, bateria e percussão). Depois entrou a parceria com a Delira Música, que realizou a parte 'burocrática' do meu sonho. Muito bacana, porque já éramos parceiros através do disco do LiberTango. Deu super certo!
CDA - Sobre a situação "político-social" da música brasileira - você acha que melhorou alguma coisa? Como você está vendo a recepção da música instrumental no mercado?
Marcelo - Essa é aquela pergunta difícil de responder em menos de dez páginas, não é? Tentando resumir um pouco, acho que a coisa melhorou um pouquinho só. A música instrumental ainda é considerada "difícil" de ser escutada por causa da educação de base do país. Aqui não se ensina um instrumento ou se tem qualquer conhecimento básico de música nas escolas. Isso se reflete posteriormente, quando a criança cresce, na falta de interesse em outros estilos de música que não sejam aqueles que o mercado impõe. Atualmente, vemos a ascensão de alguns instrumentistas como Yamandú Costa, Hamilton de Hollanda etc. Esses caras estão entre os melhores músicos do mundo, segundo a imprensa estrangeira! E aí pergunto por aqui se alguém conhece e apenas poucos dizem que sim. O mercado instrumental continua, devagarinho, ainda bem restrito... Acho que tocar com cantores e ter trabalhos em que também canto me faz enxergar isso a fundo. A música vocal é de fato mais aceita porque tem o recurso da letra como mensagem direta aos ouvidos. Há que se citar também a grande quebra das gravadoras por causa da pirataria. Os "grandes" artistas já não vendem tanto, abrindo mais espaço para os "menores", que ainda não têm muita projeção. Ainda estamos no meio desse turbilhão.
CDA - Você é filho de Estela Caldi e a família é de músicos - quais as influências musicais que você teve na infância?
Marcelo - Eita, é tanta gente que nem dá pra contar, rs! Não só minha mãe é pianista, como meu pai também era. Tenho cinco irmãos (todos mais velhos) e minha casa sempre foi um lugar de muita música. Meu pai, Homero de Magalhães, grande pianista erudito, sempre estudou e tocou as mais variadas coisas, desde Beethoven e Bach a Villa-Lobos e Ernesto Nazareth. Minha mãe, Estela Caldi, argentina, e também grande pianista, trouxe em sua bagagem a influência do tango tradicional e de Piazzolla, que ela toca até hoje como ninguém. Daí o fato de termos um trabalho dedicado ao tango, juntos. Meu irmão Alexandre, que toca saxes e flauta, me trouxe muita coisa da música popular - samba, forró, choro, jazz e tudo o mais. Então vi que estava perdido, a música era mais forte do que eu. Toco piano desde os dez anos e comprei um acordeom aos dezenove. Hoje considero ambos meus primeiros instrumentos, já que trabalho sempre tocando os dois.
CDA - Você é muito jovem e tem um currículo extenso! Você começou a tocar profissionalmente com que idade?
Marcelo - Comecei com uns dezessete anos. De fato tenho um currículo extenso porque gosto muito de trabalho. Estou sempre muito enrolado, estudando ou dividido em muitos projetos, todos com a mesma intensidade. Adoro o que faço! Como disse antes, quando comecei a trabalhar mais, todos os trabalhos envolviam mais o acordeom que o piano. Coincidência ou não, o acordeom me fez ficar mais visado e só depois as pessoas descobriam que eu tocava piano "também". Engraçado isso, porque o mercado realmente tá precisando de acordeonistas...
CDA - E você começou a compor com que idade? Nessa época você já estava escrevendo suas primeiras composições?
Marcelo - A composição começou quase junto do aprendizado de música. Tenho até hoje umas composições escritas com letrinha de criança, com uns 12 ou 13 anos. Muito engraçado, porque só me decidi pela música muito mais tarde, apesar de ver hoje que ela já estava em mim desde o início. E compor é o que mais gosto de fazer, sem dúvida. Eu nem gostava muito de tocar piano, gostava de tocar aquelas musiquinhas, rs! Meu "pianismo" se desenvolveu à medida que minha cabeça de compositor evoluiu pra criar coisas mais difíceis. Demoro pra acabar todas as músicas que faço, fico lapidando cada dia, até chegar naquele ponto que quero. Lembro-me perfeitamente quando mostrei as primeiras músicas pro Ian Guest, que foi um grande professor e amigo, e ele adorou. Aquilo foi meu maior incentivo pra decidir o que fazer da vida. Devia ter uns 16 anos mais ou menos.
CDA - E o acordeom? Como é que o acordeom entrou na sua vida?
Marcelo - Já era estudante de Composição na UNI-RIO e já tocava um pouquinho por aí, quando me chamaram pra montar um grupo de forró, que era a moda da época. Eu só tocava piano e estudava um pouquinho de clarineta. Acabei entrando como clarinetista do grupo, e tocava escaleta (aquele pianinho que a gente sopra) também. Mas faltava realmente aquele som, aquela identificação com o sotaque nordestino. Resolvi comprar um acordeom e a coisa deu super certo. Acabou que toco forró até hoje e descobri muitas outras coisas no acordeom, os grandes gênios (que pra mim são Dominguinhos e Sivuca)... Hoje toco com o quarteto que acompanhou Sivuca até seu falecimento e tenho muito orgulho de poder homenageá-lo em cada show que fazemos. E o tango, claro, tem o capítulo da descoberta do tango. O acordeom me fez tocar muito tango e conhecer sua linguagem através da minha mãe. Acho que o sangue pontenho dela falou muito alto.
CDA - Planos para o futuro?
Marcelo - Esses são muitos, sem dúvida. A produção anda correndo solta, os próximos projetos são um disco do grupo vocal Garganta Profunda e um disco de forrós e choros, com o flautista Fábio Luna. Já toco em meu show muitas músicas novas, que provavelmente serão gravadas num próximo disco... O LiberTango deve entrar em estúdio também em no máximo seis meses. Enfim, não consigo parar... hehehe... É isso que me move, poder tocar, escrever e compor.
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